No último ato de sua campanha, realizado na Avenida Paulista, o presidente Lula (PT) trouxe um forte simbolismo ao pedir que o Hino da Independência fosse tocado para seus milhares de apoiadores. O momento, que também foi marcado pela celebração da vitória no segundo turno, destacou a mensagem de que o Brasil “não cabe no quintal de ninguém”.
Em meio a uma intensa disputa política, onde o conceito de “soberania” se tornou central, Lula utilizou o hino não apenas como uma canção, mas como um manifesto de liberdade e autonomia nacional. A escolha do hino, composto em 1822 sob a batuta do Imperador D. Pedro I, reflete uma busca por reapropriação de símbolos que, nos últimos anos, foram capturados por correntes políticas mais extremistas.
Durante o ato no sábado (24), Lula fez um desfile em um trio elétrico ao lado de sua esposa, Janja, e figuras proeminentes do seu partido. O evento foi descrito como um dos maiores já vistos na avenida, com 14 quarteirões lotados de manifestantes. A princípio, a escolha do Hino da Independência gerou um clima de estranhamento entre alguns presentes, mas logo a emoção tomou conta do público, que entoou o refrão em uníssono.
No dia seguinte, ao celebrar sua reeleição, Lula reiterou a importância do hino, enfatizando que a música serve como um lembrete para seus adversários sobre a verdadeira essência da soberania brasileira. Ele vinculou a ideia de soberania à autonomia do país frente a influências externas, um tema que polarizou a campanha eleitoral. Enquanto Lula promove esta visão, seu adversário, Flávio Bolsonaro (PL), a abordou a partir de uma perspectiva voltada para a segurança pública.
A cientista política Tathiana Chicarino analisa que o uso do Hino da Independência por Lula conecta diretamente seu discurso à defesa da autonomia nacional. Para ela, o hino é uma ferramenta poderosa, pois sua letra é amplamente reconhecida e carrega uma mensagem clara e contundente.
A disputa por símbolos nacionais, como a bandeira e o hino, não é apenas uma questão estética, mas um campo de batalha ideológico. Chicarino argumenta que essa luta é essencial para a democracia, já que símbolos patrióticos não devem ser monopolizados por uma única facção política. O patriotismo e a defesa do Brasil são temas que precisam ser resgatados e discutidos por todos os setores da sociedade.
A história recente do Brasil revela que essa disputa por identidade nacional se intensificou desde as manifestações de 2013 e se consolidou com a ascensão da extrema-direita. Com a eleição de Bolsonaro, os símbolos nacionais foram associados a uma visão excludente, mas agora há um movimento crescente para reverter essa polarização.
Com a reapropriação de símbolos como o verde e o amarelo, apoiadores de Lula tentam romper com a ideia de que esses elementos são exclusivamente do bolsonarismo. A busca por um nacionalismo inclusivo, que respeita as diversidades e diferenças, é um passo importante para a construção de um sentimento de pertencimento mais amplo entre os brasileiros.
Assim, o uso do Hino da Independência por Lula não é apenas uma escolha musical, mas uma estratégia de reafirmação da soberania e da unidade do povo brasileiro, um convite para todos a se unirem em torno de um ideal comum, sem deixar ninguém de fora.


